sexta-feira, 17 de junho de 2011

O Grande Quadro



O grande quadro

Havia em um país um grande quadro, uma gigantesca pintura. Apesar de antiqüíssima – e ninguém podia dizer qual era a sua idade nem de onde poderia ter vindo – conservava toda a sua beleza, com cores vivas, linhas nítidas e nenhum dano. Todos os moradores daquele minúsculo país, o tempo todo passavam pelo grande quadro, mas com a rotina boa parte deles nem o via mais, nem prestava atenção a detalhes. O quotidiano era imperativo.

Havia muitos boatos e lendas sobre a origem daquele incompreensível trabalho. Mas nenhuma delas era consenso, nem podia responder a todas as dúvidas que ele suscitava.
Era uma tela enorme, desproporcional à escala humana. Em seu plano de fundo havia uma abstração, que apesar de aparentemente aleatória, poderia ter alguma lógica construtiva. E todas as figuras que estavam ali pintadas, eram ricamente detalhadas. Tão ricamente e de forma tão complexa, que muitas pessoas já há um bom tempo analizavam seus detalhes. De geração em geração, descobria-se algo, que era anotado na Academia de Análise do Grande Quadro.
Livros e hipóteses foram criados para explicar aquilo. Mas devido à sua hipercomplexidade, todas eram parciais, e simplificavam fatos do trabalho em busca de uma explicação forçada. Teorias e teorias

Havia no quadro animais, pessoas, rios e montanhas. Plantas, insetos, auroras boreais, invernos e tempestades. E mesmo com tudo isso, havia uma harmonia plena, um equilíbrio desmedido.

E com o tempo, com o conhecimento adquirido da análise do grande quadro, alguns pequenos artistas emergiram, diretamente da Academia, apresentando em público alguns garranchos, rabiscos e carimbos esdrúxulos que eram aplaudidos por alguns fanáticos da medíocre cidadezinha.

Escolas de design, engenharia, química, física, matemática quântica, gastronomia, e todo tipo de conhecimento foram aos poucos surgindo a partir da Academia. E sempre, de tempos em tempos, membros de peso eram aplaudidos em determinadas áreas, por seus feitos baseados no que descobriram do Grande Quadro.

Certo dia, duas pessoas apreciavam o Grande Trabalho, cada uma a seu modo, ao passo que uma era um grande membro da Academia, versado em muitas artes, e a outra pessoa era comum, anônima, simples e despretensiosa.

1- Olá!
2- Oi! Interessante este quadro né? De onde será que veio?

1- Hm... boa pergunta. Apesar dos boatos, temos algumas máquinas que podem nos dar pistas sobre isso, e inclusive ajudar a data-lo! Assim não ficaremos presos a lendas e mitos supersticiosos, e nos ateremos a fatos!
2- Mas isso é formidável! E quais os fatos já são razoáveis para esta avaliação?

1- Sabemos que é muito grande e muito antigo. E que não foi feito aqui. Aliás, acreditamos na verdade que não foi feito, mas que surgiu ao acaso, numa coincidência bizarra de eventos cumulativos que deram forma a todas essas figuras hipercomplexas de animais, plantas, seres e outros itens da natureza.
2- Bom, eu prefiro acreditar que um dia alguém pintou isso aí, e que quem fez isso dominava todas as artes, muito além do que podemos imaginar.

1- Isso seria absurdo, não temos como provar que alguém pintou isso aí. Nos atemos a fatos.
2- Como não? Esse trabalho tem lógica, complexidade direcionada, intenção. A maior parte dos detalhes não poderia ter surgido ao acaso, e mesmo a parte abstrata do fundo tem uma estrutura que tem tudo pra ter sido feita por alguém... tudo isso comunica alguma coisa, toca de uma forma inexplicável. Isso tem arte... é inacreditável. Quem criou isso aí merece os parabéns...

1- Discordo. Esse trabalho é o resultado de forças em equilíbrio, em movimento, e as formas complexas seguem um padrão de leis geométricas e de cores, de forma absurda, que seria despropositado achar que alguém o teria feito. Isso seria desejar que alguém o fez. E não temos como provar isso, aliás temos como provar o contrário: nossas pesquisas têm diversos dados que dão razão para a inexistência de um autor. Não somos supersticiosos: somente cérebros fracos poderiam crer que alguém fez essa enorme e hiper-complexa obra, com tantos detalhes, com tanta perfeição, com pureza tão elevada que até mesmo nos ruídos podemos ver as forças aleatórias em ação... E esse negócio de arte é coisa de sonhador. Arte não existe. Amor não existe, só existem forças químicas e eletromagnéticas.
2- Estranho pensamento... e como será que essas formas tão cheias de design e propósito, nessa cena toda integrada e com evidencias de uma forte interação entre os elementos, como que movidos em direção a um propósito que não podemos compreender ainda?

1- Não compreender é porque não existe um propósito. E o que você chama de design eu digo que é obra do acaso. Todas essas figuras foram extrudadas de um bloco maciço, com conteúdo caótico como lava derretida. Na parte do fundo do bloco não há nenhuma parte cristalizada. Nesta parte onde ele foi cortado, todas as formas estão delineadas com isso que você chama de arte.
2- Então você diz que a partir de um nada caótico essas figuras evoluíram ao longo do tempo, e que essa lâmina retirada de uma peça maciça gigantesca que está em algum lugar que ninguém sabe onde, nem o tamanho, nem se realmente é ou foi assim, e nem para onde vai, e muito menos como foi trazida pra cá, representa o resultado de forças do acaso combinadas? Mas peraí, o que direcionou tudo isso?

1- Leis que sempre existiram.
2- E de onde vieram essas leis? E com que propósito? E porque elas não são caóticas? Elas são parte do bloco maciço ou vem de outro lugar?

1 – São parte do bloco maciço. Elas sempre existiram e ninguém as criou. E elas não servem pra nada, e apesar de estranhamente perfeitas e harmoniosas. Nossas máquinas operadas por matemáticos detectaram que essa tela é esticada por quatro lados, perfeitamente alinhada, em equilíbrio perfeito. E que a base é feita de um tecido muito fino, tão fino que suas fibras nem podem ser vistas a olho nu. Descobrimos que o quadro é todo feito destas mesmas fibras, que geram as diversas cores. E que essas fibras são feitas todas da mesma planta, mas a forma que elas são trançadas é que gera as cores. Isso prova que ninguém fez esse quadro. Além disso, pelos cálculos do tamanho do quadro, que estimamos ter surgido de uma bolinha de dimensões infinitamente pequenas, deve ter exatamente 13,5 bilhões de anos, três meses, dois dias, oito horas e quarenta e cinco minutos e vinte e sete segundos. Somos geniais na Academia, e pela estrutura de cores desse quadro, descobrimos isso e fizemos diversos gráficos de forma que olhando pros gráficos e pra alguns pressupostos, você vai acreditar com fé.
2 – Maravilha... fico assombrado com a competência de vocês. É muita inteligência calcular esse número baseado no formato do Grande Quadro. Mais estranho é que não dá pra ver a moldura de tão longe que ela está. Como vocês mediram a moldura?

1- Você não poderia entender, é muito complexo. Apenas membros da Academia podem entender. E tudo isso prova que esse quadro não foi feito por ninguém. Ele surgiu do nada, formou-se sozinho, sem objetivo nem intenção, e toda essa quantidade infinita de formas aparentemente desenhadas, não passa de obra de diversos acasos combinados... E o mais importante de tudo: nossos aparelhos nunca detectaram a presença de nenhum autor, e ninguém nunca o viu andando por aí, e ele nunca respondeu diante de um grupo da Academia, sob nossos aparelhos. Sabe, é preciso ter muita fé para acreditar nos resultados, por isso se eles não forem absolutamente significativos, a tal ponto que até uma pedra sinta o impacto material do teste, ninguém acredita. É assim que as coisas são...
2- É um método interessante. Mas você sabia que esse quadro reage às pessoas? Outro dia uma amiga minha, que tem certeza que um autor fez esse quadro, escreveu nele uma coisinha com a/c pro suposto autor e não é que aconteceu?

1- Isso é coisa da cabeça dela. Nossos aparelhos nunca mediram esse tipo de bobagem.
2 – Bom, é isso aí.... vou nessa que eu tenho que resolver umas coisinhas... uma boa tarde pra você! Estou lendo um livro que se chama “Não perca tempo discutindo com tolos”! é um livro excelente, você já viu?

E cada uma das figuras foi para o seu lado, acreditando em sua verdade, misturando-se às outras figuras ricamente pintadas no Grande Quadro.



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